O Soldado Promovido a Tenente
A evolução silenciosa de um reforço discreto que se tornou indispensável

Quando Pablo Rosario chegou ao FC Porto, no final de agosto de 2025, Alan Varela tinha renovado poucos meses antes até 2030 e o meio-campo tinha uma hierarquia relativamente clara. Rosario chegava do Nice por 3,75 milhões de euros, conhecia o treinador e aparecia sobretudo como uma solução de rotação, oferecendo experiência, polivalência e profundidade ao plantel. O próprio Farioli viria a descrevê-lo publicamente como um “soldado”, pela disponibilidade para desempenhar diferentes funções.
Na primeira época, Rosario foi ganhando espaço através de uma adaptabilidade notável. Terminou 2025/26 com 40 jogos pelo FC Porto, dois golos, uma assistência e 2.945 minutos, contribuindo largamente para o título. Pelo caminho, Farioli utilizou-o como médio defensivo, interior, defesa central e até lateral. A adaptação a lateral direito tornou-se particularmente útil em momentos de menor disponibilidade naquela posição, perante as ausências de Martim Fernandes e Alberto Costa. Chegou ainda a entrar do banco para o lado esquerdo da defesa, terminando a época com cinco posições diferentes ocupadas. Consegue perceber rapidamente as exigências de cada função e raramente parece desconfortável a jogar fora do seu elemento. A lateral direito a equipa perde naturalmente alguma capacidade ofensiva e alguma velocidade em transição comparativamente a um jogador de raiz, mas não deixa de oferecer segurança na saída, presença nos duelos e capacidade para fechar por dentro quando o jogo exige. Tem capacidade física para disputar duelos, presença aérea e uma leitura defensiva que lhe permite antecipar lances antes de ser forçado a resolvê-los em esforço. Já este ano, voltou a ser utilizado nessa posição frente ao Aston Villa. No jogo com o Manchester City, revelou bastantes dificuldades nessas métricas, mas o nível também foi muito mais alto do que habitualmente.
Com bola, é menos exuberante do que outros médios do plantel, mas está longe de ser apenas um jogador de segurança. Tem qualidade no primeiro passe, recebe bem sob pressão e tem vindo a tornar-se mais vertical. A exibição num jogo de nível elevado como o Clássico, frente ao Benfica, foi provavelmente uma das demonstrações mais completas dessa evolução: acertou 35 dos 36 passes que tentou e fez 16 passes para o último terço, com 94% de eficácia nesse capítulo. Apenas Kiwior e Bednarek tiveram mais, mas os centrais não são tão expostos ao risco com bola. Teve ainda intervenção direta na construção do 2-1, encontrando André Silva entre linhas para o golo de Froholdt.
Farioli conhece-o desde o Nice e Rosario admite que essa relação lhe facilitou muito a adaptação, porque já sabia aquilo que o treinador pretendia e conhecia as exigências do seu modelo. Essa confiança ajuda a explicar a quantidade de responsabilidades que foi acumulando. Farioli consegue mudar-lhe a posição durante o decorrer de um jogo sem perturbar o funcionamento coletivo da equipa. Começou 2026/27 como titular na Supertaça, entrou do banco na primeira jornada do campeonato e, a partir da deslocação a Vila do Conde, completou sete jogos consecutivos a cumprir os 90 minutos. Até ao dia de hoje leva nove jogos pelo FC Porto, oito como titular, 752 minutos e duas assistências. Em apenas nove partidas, já ultrapassou a única assistência que tinha conseguido nos 40 jogos da época passada. As duas foram para André Silva, frente ao Académico de Viseu e ao Casa Pia.
Mais esclarecedor ainda é o peso que ganhou dentro do próprio plantel. No final deste primeiro ciclo competitivo, Rosario é o quarto jogador mais utilizado por Farioli, atrás apenas de Kiwior, Diogo Costa e Pepê. Alan Varela, o jogador que começou por ser a referência natural da posição, soma apenas 199 minutos. A mudança de estatuto é evidente.
Não chegou por uma verba elevada, não teve uma apresentação que gerasse expectativas e nem sequer entrou para um setor desprovido de um titular imediato e urgente. Foi acumulando minutos, ocupando com eficácia todas as posições que lhe foram sendo atribuídas, até deixar de ser um jogador apenas útil. A rotação será inevitável, até porque vem aí a Liga dos Campeões, mas não há dúvidas de que o soldado de Farioli foi promovido a tenente, e será muito difícil despromovê-lo. Os portistas agradecem.




Comentários